terça-feira, 22 de maio de 2012

Bullying e homofobia nas escolas


Esse assunto tem estado muito em evidência ultimamente, e deve ter gente se perguntando por que há tanta insistência no assunto.  Afinal, já não se falou o suficiente? As pessoas já não estão 'carecas' de saber?

Sim, as pessoas sabem que o bullying acontece, mas é só. A solução ainda está longe de ter sido alcançada, e isso porque envolve uma série de fatores.

Bullying em geral já é ruim, mas quando acontece com alguém por motivos que ele ou ela consegue conversar com os pais ainda há uma saída, porque os pais podem ir à escola e conversar com a direção e os professores e tentar achar uma solução. Um trabalho interessante neste sentido foi feito em uma escola em Porto Alegre e pode ser visto aqui: "CAMINHOS DA ESCOLA ESPECIAL -DESAFIO BULLYING".

No entanto, quando se trata de adolescentes LGBT o panorama muda. Muitas vezes o/a adolescente não pode contar para os pais que sofre bullying na escola pelo simples motivo de que ele não pode contar sobre a sua homossexualidade para os pais. A maioria dos pais não está preparada para lidar com essa realidade, existem inúmeros relatos de jovens LGBT que são obrigados a esconder da família o que são e, portanto, também não podem contar com a ajuda dos pais para tentar uma solução junto à escola. Isso leva a situações como essa descrita em um artigo da Unesco, sobre evasão escolar:

Bullying homofóbico colabora com evasão escolar, diz Unesco  "Pesquisas recentes, como o estudo Discriminação em razão da Orientação Sexual e da Identidade de Gênero na Europa, do Conselho da Europa, identificaram que como resultado do estigma e da discriminação na escola, jovens submetidos ao assédio homofóbico são mais propensos a abandonar os estudos. Também são mais predispostos a contemplar a automutilação, cometer suicídio e se engajar em atividades ou comportamentos que apresentam risco à saúde."

Essa situação de isolamento total, na qual o/a jovem não pode contar com ninguém para ajudá-lo pode levar a extremos como o suicídio e outros problemas. Um caso ocorrido no Brasil ilustra o abandono em que se encontram jovens assim:




Mesmo quando não chega a esse ponto, há sérias consequências. Em um estudo feito nos EUA concluiu-se que há uma tendência maior à depressão e ao comportamento de risco e de contrair DSTs.

EUA: Novos dados relacionambullying homofóbico na escola com o suicídio, VIH e doenças sexualmente transmissíveis  Jovens adultos LGBT que relataram altos níveis de vitimização LGBT na escola durante a adolescência tiveram 5,6 vezes mais probabilidade de terem tentado suicídio, 5,6 vezes mais probabilidade de uma tentativa de suicídio que necessitaram de cuidados médicos, 2,6 vezes mais probabilidade de relatar níveis clínicos de depressão, e duas vezes mais probabilidade de ter sido diagnosticado com uma doença sexualmente transmissível e de comportamentos de risco para a infecção VIH, em comparação com os colegas que relataram baixos níveis de vitimização da escola.Homens jovens adultos gays, bissexuais e transgéneros relataram níveis mais elevados de vitimização LGBT na escola do que as mulheres lésbicas e bissexuais jovens.Jovens adultos LGBT que relataram níveis mais baixos de vitimização na escola relataram níveis mais elevados de auto-estima, satisfação de vida e integração social em comparação com os pares com maiores níveis de vitimização da escola durante a adolescência.




No Brasil a situação não é diferente. Conforme um estudo feito aqui:
Maioria dos jovens brasileiros discrimina homossexuais, diz estudo  Um estudo coordenado pela pesquisadora Miriam Abramovay apontou que 45% dos alunos e 15% das alunas não queriam ter colegas homossexuais.Conforme Miriam, esse preconceito se traduz em insultos, violências simbólicas e violência física contra os jovens homossexuais. Ela destaca que se trata de violência homofóbica, por parte de toda a sociedade, inclusive de familiares, e não apenas bullying (que é a violência entre pares). De acordo com a pesquisadora, essa violência gera sentimentos de desvalorização e sentimentos de vulnerabilidade nos jovens homossexuais.Diante desses fatos, a deputada Erika Kokay (PT-DF) apontou como urgente que o governo retome o projeto Escola sem Homofobia.

Em uma entrevista feita recentemente com o deputado Jean Wyllys, ele conta um pouco sobre a sua própria experiência como vítima de bullying na escola:
Violência contra homossexuais tem origem na infância, diz Jean Wyllys  Deputado contou sua própria experiência durante o seminário.O deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) destacou há pouco que a violência contra os homossexuais, que inclui casos diários de assassinatos, tem origem na infância. Ele participa do 9º Seminário Nacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT), organizado pelas comissões de Direitos Humanos e Minorias; e de Educação e Cultura.Wyllys, que é coordenador da Frente Mista pela Cidadania LGBT na Câmara, deu depoimento pessoal sobre sua infância em Alagoinhas, no interior da Bahia. Ele não se identificava, a partir dos 5 anos, com “coisas de meninos”, como futebol. “Eu gostava de fazer desenhos, brincar de roda, de cantar e de brincar de boneca com as minhas primas. Eu gostava de coisas de menina”, disse.
Segundo ele, nessa época começou a ser chamado de apelidos ofensivos e receber outras injúrias, além de ser vítima de violência física, por parte de outras crianças e também por parte de adultos, inclusive familiares. “Essas crianças não recebem nenhuma defesa na escola, e os professores muitas vezes inclusive culpam as crianças pelas injúrias recebidas”, afirmou. “Quem mandou ter esse jeitinho?, perguntam as professoras”. Segundo ele, os efeitos do tratamento hostil nas crianças e adolescentes vão da timidez a deficiências da fala, chegando a psicoses.

A quem cabe resolver o problema? Àquele que tem o poder para isso. Diante de tantas evidências de que o bullying de fato ocorre nas escolas, e considerando que os pais e professores estão sem nenhum preparo para lidar com a situação, fica muito claro que a solução precisa vir das autoridades. O Kit Anti-Homofobia que foi vetado pela presidente Dilma é uma das coisas de que precisamos para mudar o panorama do bullying nas escolas.

A omissão descrita por Jean Wyllys na entrevista parece ser comum. Como se pode ver no vídeo sobre o suicídio ocorrido no Brasil, a professora também se omitiu. Pode-se concluir que muitos professores se omitem possivelmente porque eles mesmos são homofóbicos. Embora não cometam violência eles mesmos, permitem que aconteça. Nas palavras do irmão do menino de 14 anos que se suicidou: "olha aí ó, meu irmão tá apanhando aí, tem uns moleque batendo nele aí. Aí ela [a professora] 'ah, não tenho nada a ver com isso, a briga é de vocês' "

Quando a criança sai do ambiente da família para o ambiente maior que é a escola, em seu processo gradual de se inserir na sociedade, ela precisa ser protegida. Não é correto tratá-la como se fosse uma pessoa adulta, já plenamente capaz de se defender, nem de agressões verbais, muito menos físicas. E muitas vezes a orientação tem que vir de cima: são as autoridades que precisam mandar um recado muito claro de que a omissão diante desse tipo de conduta é inadmissível.

Åsa Heuser
vice-presidente da LiHS
para o Conselho LGBT da LiHS

terça-feira, 15 de maio de 2012

9º Seminário LGBT: Respeito à Diversidade se Aprende na Infância


Mesa de abertura do 9º Seminário LGBT na Câmara dos Deputados
Nesta terça-feira, dia 15 de maio de 2012, foi realizado o 9º Seminário LGBT, sob o tema “Respeito à Diversidade se Aprende na Infância”.  O evento foi sediado pela Câmara dos Deputados em Brasília. O seminário ocorre uma vez por ano. Este ano durou o dia inteiro. O tema foi sexualidade na infância e na adolescência, os papéis de gênero e o bullying. Foram ouvidos deputados, como Jean Wyllys, especialistas das áreas de direito, psicologia e educação, com o objetivo de retomar a discussão iniciada pela apresentação do projeto “Escola Sem Homofobia”.

O evento foi organizado pelas Comissões de Direitos Humanos e Minorias e Educação e Cultura, apoiado pela primeira vez por duas Frentes Parlamentares Mistas: (1) pela Cidadania de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, (2) Direitos Humanos da Criança e do Adolescente. O evento foi transmitido ao vivo pelo site da Câmara dos Deputados.

O requerimento do seminário foi feito pelo deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) e pela deputada Erika Kokay (PT-DF).

Participaram do evento grandes nomes na área do direito como Maria Berenice Dias, presidente do Instituto Brasileiro de Direito da Família (IBDFAM); Lena Franco, do Instituto Ecos – Comunicação e Sexualidade e Coordenadora do Projeto Escola Sem Homofobia; e Miriam Abramovay – Coordenadora do projeto Violência e convivência nas escolas brasileiras (parceria entre FLACSO, MEC e OEI), além de representantes do governo e de organizações internacionais como Unesco e Unicef.

Representantes da sociedade civil também estarão presentes, especialmente mães de LGBT que sofreram bullying e ataques homofóbicos, como o caso de Marlene Xavier, representante das Mães da Igualdade, que tem 4 filhos LGBT, e Angélica Ivo, mãe do jovem Alexandre Ivo, torturado e morto aos 14 anos por crime de homofobia em São Gonçalo (RJ). João W. Nery, primeiro transhomem brasileiro e autor do livro “Viagem Solitária” apresentou sua experiência com enfoque na questão do papel de gênero em seu processo de educação.


O Seminário contou com três eixos temáticos: “Subjetividade e papéis de gênero (É possível falar em uma infância e adolescência gay?)”; “Educação, sexualidade e gêneros (O que os papéis de gênero têm a ver com a prática do bullying nas escolas?)”; e “Infância, adolescência e estado de direitos (Como estender as redes de proteção da infância e da adolescência aos meninos e meninas que fogem dos papéis de gênero?)”.

A LiHS, agindo de acordo com sua visão de laicidade, vem à público apoiar as iniciativas do 9º Seminário LGBT, realizado na Câmara Federal, especialmente no que diz respeito ao combate ao bullying homofóbico nas escolas, assim como ao combate à violência contra os indivíduos LGBT, desde sua infância. O respeito às diversidades, sejam estas sexuais, raciais, culturais, regionais ou quaisquer outras que designem a riqueza da experiência humana, é condição fundamental para a construção do Estado laico e pluralista.

A escola, cujo caráter deve ser libertador, tem se mostrado muitas vezes repressora, anulando as subjetividades em detrimento de uma uniformização de cosmovisão e comportamento que não condiz com os ideais de liberdade que a própria noção de Estado democrático de direito traz em seu bojo. É preciso que educadores, administradores públicos, legisladores e os próprios alunos e pais compreendam a relevância das sexualidades e das subjetividades a elas associadas na emancipação pessoal do indivíduo em todas as etapas de seu desenvolvimento. É preciso que haja liberdade e capacidade por parte dos educadores de discutir desses temas – sob a égide da liberdade, da felicidade e do respeito às subjetividades - sempre que a própria experiência da comunidade escolar colocá-los em pauta.

O Estado, no uso de suas atribuições como viabilizador dos meios de vida, deve criar redes de proteção que garantam os direitos básicos de seus cidadãos. Daí, a legitimidade de ações que protejam as crianças e adolescentes contra qualquer tipo de violação, dentre elas o bullying homofóbico que afeta especificamente as crianças e os adolescentes LGBT.  E contra isso não cabe argumentação, seja oriunda da burguesia conservadora – muitas vezes herdeira de uma visão coercitiva gestada na ditadura militar – ou do fundamentalismo religioso, tanto de vertente católica como protestante, especialmente dos evangélicos neopentecostais. O Estado deve ser mantenedor e promotor do respeito à pluralidade, à diversidade, objetivando uma sociedade pacífica, próspera e feliz. Quando isso acontece, ganha a sociedade civil e ganha o próprio Estado, pois o que poderia ser mais estabilizador para o próprio Estado do que uma sociedade que vive assim?

Sergio Viula
Presidente do Conselho LGBT da LiHS
(Com informações do portal da Câmara dos Deputados)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Mães pela Igualdade


Quando a dor se transforma em força


Mãe Beduína. Garrigues, 1917.
Maio se estabeleceu como o mês das mães. É verdade que boa parte dessa celebração é motivada pelos interesses da indústria e do comércio, mas é inegável que o amor que se estabelece entre mãe e filho desde a gestação é forte, belo e mais forte que a morte. Infelizmente, há exceções. Todavia, a esmagadora evidência demonstra que a relação mãe-filho comporta compreensão e cumplicidade num nível que dificilmente encontra semelhante.

Por isso mesmo, a dor de uma mãe que vê o próprio filho ferido é incomparável e torna-se insuportável quando essa mãe precisa enterra-lo. Seria injusto, porém, não reconhecer que muitos pais sentem e demonstram a mesma compreensão, cumplicidade e dor para com seus filhos ao longo da jornada da vida. Isso não é uma exclusividade feminina, mas ganha contornos mais visíveis nas mães do que nos pais talvez até por razões biológicas ou culturais, ou uma combinação de ambas, como saber?

Esse ano, o dia das mães será dia 13 de maio, domingo próximo. Por isso, a LiHS aproveita a oportunidade para vir à público e manifestar seu apoio às mães que, tendo vivenciado a dor de ver um filho ferido ou morto por homofobia, ainda estão não tiveram pelo menos o consolo de ver os agressores ou assassinos de seus rebentos responder juridicamente por tais atrocidades.

No Rio de Janeiro, Coordenadoria de Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio de Janeiro (www.cedsrio.com.br) em parceria com a organização internacional AllOut (http://www.allout.org/pt/maespelaigualdade) organizou uma emocionante exposição que esteve na Praça XV semana passada, e que agora migra para outros pontos da cidade. Nela, fotos de mães com seus filhos gays, lésbicas e transexuais emocionam quem passa. As fotos são acompanhadas de comentários das mães sobre seus filhos. Existem quadros, porém, nos quais as mães estão sozinhas. A tristeza no olhar dessas mulheres é reveladora: ali está a dor da ausência. Seus filhos foram mortos por homofóbicos; sua alegria foi estancada, suas vidas foram marcadas pela tristeza que acompanha tamanha crueldade. A dor ganha novos contornos quando deputados e senadores se omitem diante de tanta crueldade. Um parlamentar conhecido por demonstrar atitudes racistas, machistas e homofóbicas. Em 2012, ele disse: “Prefiro ter um filho morto em acidente do que um filho gay.”

Quando legisladores que deveriam promover a igualdade e coibir a discriminação e agressão contra qualquer cidadão, inclusive o cidadão LGBT, dizem esse tipo de absurdo ou agem motivados por preconceitos como esse para adiar a aprovação de leis que protejam essa parcela vulnerável da população, eles torturam as vítimas mais uma vez, sejam os próprios homoafetivos ou seus parentes e amigos. As mães que encontraram os corpos inertes de seus filhos, muita vezes, mutilados pelo ódio homofóbico de seus agressores, são violentadas de novo. Aquelas que viram seus filhos hospitalizados são novamente submetidas à dor. Os filhos que sobreviveram à violência dos agressores revivem o terror vivido naqueles momentos que pareciam intermináveis, agora com o agravante da injúria de quem deveria garantir seus direitos – o Estado.

“Nós últimos meses, mães de todos os cantos do Brasil começaram a unir suas forças para dar um recado claro contra a discriminação, a violência e a homofobia crescentes, que estão saindo do controle no país. Elas se recusam a aceitar insultos e injúrias contra seus filhos. Elas são as ‘Mães pela Igualdade’.” – informa a AllOut que promove com a prefeitura do Rio essa emocionante exposição que será apresentada na Praça Antero de Quental (Leblon), de 09 a 15 de maio, depois Praça Saen Peña (Tijuca), de 16 a 22 de maio, e finalmente Vigário Geral de 23 a 29 de maio.

É fato que sendo no Rio de Janeiro a campanha terá visibilidade, porém, muitos brasileiros que moram em outras cidades não terão a oportunidade de ver a exposição.Há, porém, um modo de participar desse importante movimento. A AllOut está promovendo uma petição que você pode assinar de qualquer lugar do Brasil e do mundo. A petição está online.  Apoie essa iniciativa que mitigará um pouco da dor dessas mães e poderá fazer nossas autoridades agirem contra essa onda de violência que já vitimou gente demais. Nossos legisladores precisam mandar um recado para toda a sociedade por meio de legislação que coíba crimes como esses.

Veja as fotos das mães e seus filhos, suas declarações e assine a petição aqui: http://www.allout.org/pt/maespelaigualdade

Sergio Viula
Presidente do Conselho LGBT da LiHS

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A páscoa evangélica da Chocolates Garoto


Pode-se dizer, sem medo de errar, que os chocolates Garoto fazem parte da infância de quase todos os brasileiros, e em todas as gerações que vivem atualmente. Afinal, a Garoto já tem mais de 80 anos. Pode-se dizer também que a Garoto tem um certo valor afetivo para o Brasil.

O paladar e, mais especialmente, o olfato, são sentidos que estão intimamente ligados às nossas memórias afetivas. Alguns de vocês, ao sentir o cheiro de algum desses produtos, possivelmente lembram de bons momentos na infância, especialmente na páscoa: um ritual benigno, baseado em parte na torrente de serotonina que o triptofano do chocolate nos dá, que já se secularizou há muito tempo.

Quando vi o ovo de páscoa do personagem cristão "Smilingüido" (que preservou o trema em seu nome pela intervenção divina), produzido pela Garoto, fiquei preocupado. Primeiro, porque pensava que a Garoto fosse uma empresa laica, secular, preocupada em nos satisfazer pelo paladar e não pela fé. Em segundo lugar, pela natureza da mensagem impressa na embalagem do produto.

O copo que vinha de brinde no ovo de páscoa diz "minha alegria não depende das circunstâncias mas do amor do meu criador". Posso ser chamado de exagerado, mas ensinar a crianças esse estoicismo destacado da realidade e conformista, de que a alegria não depende do estado das coisas do mundo (e como as moldamos para melhorar), não é adequado.

Tenho brincado que parte da comunidade evangélica (inclua-se a Renovação Carismática Católica aqui) parece ter inveja do mundo secular, e por isso precisa criar cópia de tudo: rock gospel, acarajé gospel, até sex shop gospel já lançaram. Só existe um nome para essa tentativa de se apropriar de tudo o que há de bom no mundo, fazendo sua própria versão "purificada": fundamentalismo.

Posso compreender que a Chocolates Garoto queira lucrar surfando na onda proselitista do movimento evangélico e católico. Mas, enquanto cresce o ressentimento de setores mais progressistas da população com os doutrinadores de crianças, creio que não é pequeno o preço que se paga por associar a imagem de uma empresa tradicional e até então aparentemente laica ao absolutismo moral e ao substituicionismo social de certos grupos.

P.S.: Curiosamente, o personagem Pildas, da turma do Smilingüido, estava ausente na embalagem do produto. Pildas é uma formiga "negra": tem lábios grossos e antenas crespas, e lembra bastante o modo como os negros eram retratados em desenhos antigos (vide aqui: http://www.youtube.com/watch?v=gH4ivOyO0PQ) que hoje são considerados inapropriados. A dona do Smilinguido, a editora Luz e Vida, chegou a fazer um boneco do personagem.


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Eli Vieira
presidente da LiHS

terça-feira, 1 de maio de 2012

A escola deve ser um lugar seguro para todas as crianças, sem exceção.


Maio é um mês bastante movimentado na agenda do movimento LGBT nacional. Em meados do mês, ocorrerão em Brasília a 3ª edição da Marcha Nacional Contra a Homofobia, o 9º Seminário LGBT no Congresso Nacional e uma Audiência Pública para tratar da criminalização da homofobia e da violência homofóbica. Esses eventos, nos dias 15 e 16, marcam a passagem do Dia Internacional Contra a Homofobia (17 de maio).

A Marcha Nacional chega à terceira edição e consolida-se como a manifestação política mais proeminente do movimento em âmbito nacional se considerarmos as Paradas do Orgulho LGBT como eventos não exclusivamente políticos, como avaliam alguns. O tom da Marcha é, até mesmo por sua realização no centro político do país, mais característico da ideia clássica de uma manifestação política. Os eventos desse ano, entretanto, trazem algumas singularidades interessantes, e vou apenas mencionar uma delas para tratar mais detidamente de uma outra.
A Audiência Pública será mais uma das várias que já foram feitas para discutir a criminalização da homofobia. O fato é que o PLC 122 está emperrado no Senado Federal, e de audiência em audiência, não se votou o projeto em plenário ainda. Esta edição tem um grande mérito, entretanto, ao dar cara e voz mais explícitas ao objeto deste projeto e desta demanda histórica do movimento. A meu ver, as histórias de vítimas da homo/les/transfobia são o elemento central neste momento, porque as discussões de legalidades e tecnicalidades já foram exaustivamente feitas. É preciso compartilhar estas histórias de violências físicas, psicológicas e morais que atingiram jovens e adultos gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais; que atingiram as mães e os pais destes LGBTs, bem como seus amigos e colegas.
A terceira mesa prevista para a Audiência trará testemunhos de homofobia. Se eu vejo esta mesa como o ponto central, creio, infelizmente, que a mesa seguinte (e final) é que terá maior destaque: a recente e intensa polarização entre Toni Reis, presidente da ABGLT, e Silas Malafaia, pastor televangelista, tem atraído a atenção não só do movimento como também da mídia. Por alguma razão de outra ordem que não a competência, a mesa “A criminalização da homofobia: aspectos constitucionais e legais” terá a presença do pastor Silas Malafaia junto de três advogados. Os três têm competência para tratar de aspectos legais e constitucionais sobre a criminalização da homofobia. Vários outros juristas que não querem o PLC 122 aprovado poderiam estar na mesa para contrapor os argumentos jurídicos dos três primeiros. Aparentemente, eles não têm interesse em ir na Audiência ou nem estão sabendo do debate. Só Silas Malafaia, cuja formação é em Psicologia e a “especialização” é em retórica, adquirida em décadas de televisão. Enfim, não vou me alongar sobre o pastor Malafaia.
A singularidade que mais me interessou este ano é a temática do 9º Seminário LGBT no Congresso Nacional (“Infância e Sexualidade”), sob organização da Frente Parlamentar Mista pela Cidadania LGBT. Considero bastante corajoso endereçar o tema da sexualidade na infância. Isso implica mover certa parede moral que joga a sexualidade para “algum momento da adolescência” e ignora a sexualidade das crianças. Este tema claramente dialoga com a problemática da homofobia nas escolas, afinal, ambiente essencialmente infantil e juvenil. É corajosa a discussão também porque este assunto está num espécie de limbo político desde o veto que Dilma deu ao material pedagógico que trataria da diversidade sexual na escola. Aliás, só lá no Ensino Médio, período em que a maioria dos jovens já iniciou ou está iniciando a vida sexual; que a maioria das crianças que fogem aos padrões de gênero e performance viril/feminina já sofreram bullying e, por fim, em que muitas das concepções machistas, homo, les e transfóbicas já estão primariamente enraizadas.
Ao focalizar a infância, o Seminário só reverbera uma espécie de consenso acadêmico - refletido não só em posições teóricas, mas também em relatos colidos in loco sobre bullying homofóbico, bem como estatísticas de violência e mesmo suicídio - sobre a necessidade de abordar a diversidade sexual com as crianças. Eu creio que uma leitura mais calma de diversos desdobramentos desta questão ajude a clarificar ainda mais a urgência pela mudança do modo como tratamos (ou ignoramos) a questão nas escolas. Um exemplo sobre o qual tentei discorrer em A Propaganda Heterossexual é justamente o mecanismo perverso que oculta a onipresença da heterossexualidade na vida das crianças, em todas as suas “ambiências”, ao passo em que aponta uma “doutrinação” (sic) na mera tentativa de falar sobre diversidade sexual.
Mas, mais uma vez, penso que compartilhar histórias seja fundamental para trazer a realidade que as pesquisas, estatísticas e teorias retratam. Em março deste ano, o caso de agressão a um adolescente de 15 anos do interior do Rio Grande do Sul ganhou destaque na imprensa. No dia 23 de março, o jovem deu seu depoimento no programa Mais Você, da Rede Globo. Você pode ouvir os 5min em que ele fala sobre o que está passando neste link (entre 4’55’’ e 9’45’’).
Já o jovem Iago não chegou a contar sua história. Só sabemos da homofobia que ele sofria na escola pelos relatos tristes de seus familiares. Na edição de 19 de maio de 2009 do Profissão Repórter, também da Rede Globo, o tema era escola de periferia, e o caso do Iago, de 14 anos, surge por acaso:

A violência que estes dois adolescentes sofreram por causa de sua real ou suposta homossexualidade não é exceção ou acidente no cotidiano escolar. Nem mesmo na sociedade. Nem mesmo no Brasil. Na edição de 24 de março do New York Times, o marroquino Abdellah Taïa contou sobre sua infância como um garoto afeminado em Salé, no noroeste do Marrocos. O ano era 1973. Em 1988, quando tinha 25 anos, Taïa exilou-se na França.
No Marrocos dos anos 80, onde a homossexualidade não existia, é claro, eu era um pequeno garoto afeminado, um garoto a ser sacrificado, um corpo humilhado sobre o qual recaia toda a hipocrisia, todos os não ditos. Quando tinha 10 anos, embora ninguém falasse sobre isso, eu sabia o que acontecia aos meninos como eu em nossa sociedade empobrecida; éramos vítimas designadas para sermos usadas, com a benção de todos, como simples objetos sexuais de homens frustrados. E eu sabia que ninguém me salvaria - nem mesmo meus pais, que certamente me amavam. Para eles também, eu era vergonha, sujeira. Um “gay”. [...] Como é para uma criança que ama seus pais, seus muitos irmãos, sua cultura operária, sua religião - o Islã -, como é que ela pode sobreviver a este trauma? Ser ferido e molestado por causa de algo que outros viram em mim - alguma coisa no modo como movo minhas mãos, as minhas inflexões. Um jeito de andar, o meu comportamento. [...] Não me recordo mais da criança, do adolescente que fui. Sei que era afeminado e tinha consciência de que ser tão explicitamente “daquele jeito” era errado.
[...] Nunca mais fui o mesmo Abdellah Taïa depois daquela noite [em que vários homens da vizinhança queriam fazer sexo com ele]. Para me salvar, eu me matei. Foi isso que fiz. Comecei a manter minha cabeça baixa todo o tempo. Eu cortei todas as relações com as crianças da vizinhança. Mudei meu comportamento. Eu me mantinha vigilante: nada mais de gestos femininos, nada mais de andar com as mulheres. Nada de mais nada. Eu tive que inventar um Abdellah inteiramente novo. Eu me empenhei nisso com grande determinação, e com a compreensão de que aquele mundo não era mais meu mundo. Cedo ou tarde, eu deixaria aquilo para trás. Eu crescercia e encontraria a liberdade em algum outro lugar. Mas até lá, eu me tornaria alguém forte. Muito forte.
A história de Abdellah ilustra bem o quanto crianças, na mais tenra idade, podem sofrer terríveis violências por não se comportarem como é esperado delas. Por não serem como se espera. Uma violência brutal que atinge jovens travestis, transexuais, gays e lésbicas. É urgente que a sexualidade - enquanto conjunto de manifestações de gênero, identidade e desejos - e a infância sejam harmonizadas. Não seria nem mesmo preciso recorrer a isso se nos recordarmos duma premissa essencial da educação: a escola deve ser um ambiente seguro e saudável para todas as crianças. Para todas elas, sem exceção.
Mais                
            ● Trailer do documentário “Bully”
Luiz Henrique Coletto
Membro do Conselho LGBT da LiHS

 
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